Old Songs

segunda-feira, 26 de março de 2007

Pensamentos sob a luz negra

Pensamentos sob a luz negra

-Edição 5-

“Quando a Morte escreve uma historia, nós devemos parar e ler”

Sexta-feira 23 de março – Livraria Argumento por volta das 19:00hs

“A menina que roubava livros”, este é o titulo do livro que estava perdido entre “A vida como ela é.” e “Sayonara Gangsters”. Na capa, um campo coberto de neve onde se vê uma árvore seca no canto esquerdo, no canto direito apenas uma figura diminuta vestida de preto protegendo-se da neve com um guarda-chuva vermelho. Esta figura passaria despercebida por olhos não tão curiosos quanto os meus, mas estes olhos identificaram em fração de segundos que a figura que ali estava era a mais clássica representação da Morte. Instintivamente virei o livro para ler a sinopse e saber do que se travava a historia, encontrei apenas uma frase em meio à imensidão branca da foto de capa que continuava na contra capa, “Quando a Morte escreve uma historia, nós devemos parar e ler.”.

O livro conta a historia de uma menina que escapou da morte três vezes e de tão impressionada a própria Morte resolve narrar sua historia. Ao ler isto na orelha do livro lembrei do meu “passado criativo”. Chamo de “passado criativo” as influências que tenho para escrever, fotografar, desenhar, ou seja, todos os tipos de expressões artísticas que desenvolvo. Este “passado” talvez seja uma das coisas mais importantes que tenho. É o que me faz ser único e o que me acompanha em todas as atividades que desenvolvo, sejam profissionais ou pessoais.

Meus amigos íntimos mais recentes provavelmente acham que meu “passado criativo” tem como única e principal influência o oriente, mais especificamente o leste asiático. Na verdade meu lado oriental é apenas minha alegoria preferida para desenvolver meus pensamentos. Minhas influências vêm de “lugares” muito diferentes do oriente. Minhas bases criativas estão diretamente ligadas à mitologia brasileira e greco-romana, literatura de fantasia européia, tratados de magia medievais, evangelhos apócrifos e literatura inglesa de mistério e ficção, além de historia em quadrinhos para adultos (não é pornografia e sim historias sérias em formato de grafic-novel).

É nesta ultima influência que entra o meu passado com a “Senhorita Morte”. Sem dúvida minha raiz criativa vem de um lugar chamado “Sonhar” onde Morpheus, a personificação do Sonho, reina absoluto. Estou falando de “Sandman” a obra prima de Neil Gaiman, escritor de historias em quadrinhos inglês.

Nesta obra a Morte é personificada por uma bela jovem gótica que leva em seu peito um Ank (Símbolo egípcio) e é irmã de Sonho (Morpheus). Ironicamente Morte é o contra ponto alegre de um Sonho depressivo e neurótico. Ela não é má em nenhum ponto, pelo contrario, Morte é uma das mais afáveis e alegres dos perpétuos (irmãos de Sonho e Morte. São eles: Destino, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio.). Ela não despreza os humanos que vem buscar, na verdade os entende como nenhum outro, mostra aos humanos que Ela não é o fim e sim o começo de algo novo e maravilhoso. Como bem disse Wallace Stevens: “A morte é mãe da beleza.”

Trazendo está definição da Morte para a vida real vemos que, a Morte é a transformação e o caminho que nos leva a ela é o medo, ou seja, nós caminhamos pelo medo a cada segundo tentando fugir da Morte, mesmo sabendo que é inevitável. Nós mentimos para nós mesmos, a cada passo que damos tentamos ganhar mais um segundo de “vida” tentando chegar num amanhã que nunca ira chegar, pois o amanhã é o futuro e quando chegamos no futuro ele vira presente, quando ele passa já é passado e por conseqüência chegamos mais perto da Morte.

Agora, sabendo que a Morte é uma transformação que nos leva a compreensão e aceitação das coisas belas da “vida”, somos obrigados a ver certas coisas de outro ângulo, vemos que o medo é uma prisão que nós mesmos criamos. Quando falo do medo, falo de sentimentos e quando falo da Morte, falo da transformação de um sentimento em outro ainda maior e mais belo. O medo (caminho) é o medo do amadurecimento que nos leva a transformação (Morte). Este é o conflito de todas as minhas historias e este é o conflito da vida de cada um de nós. Está é a raiz de todo meu “passado criativo” e é isso que vou mostrar nos “pensamentos de terras distantes” que começará na primeira semana de abril.

Com isto espero ter mostrado de que forma minha criatividade funciona e que com esta “viagem” vocês consigam se livrar das garras do medo e aceitar a Morte (transformação) com toda beleza e alegria que ela pode nos proporcionar.

Como diz o titulo da primeira minissérie da Morte dentro da obra de Neil Gaiman :

Morte: O Grande momento da vida.

Tadeu.

quinta-feira, 22 de março de 2007

Pensamentos sob a luz negra

Saudações a todos. Antes de qualquer coisa, gostaria de agradecer pelo carinho de todos que comentaram os posts anteriores aqui no blog e também aos que comentaram pessoalmente.

Bem, acho que vocês notaram que o “Old Memories” mudou um pouquinho, na minha opinião ficou mais bonito agora, mas gostaria de saber a opinião dos leitores, para isso peço que digam o que acharam nos comentários.

Além do novo visual agora tem trilha sonora logo acima do post. O “Old Songs” vai ser sempre atualizado conforme eu vá fazendo o upload das músicas que gosto. O “Pensamentos sob a luz negra” terá também trilha sonora especifica, é só clicar no play logo abaixo do titulo e ouvir.

Mais uma novidade, no inicio de abril terá a estréia do “Pensamentos de terras distantes” e para inaugurar começarei com uma historia de quatro capítulos, um capitulo por semana. Espero que gostem.

Quanto ao “pensamentos” de hoje vocês notarão algo estranho. A edição é a número dois. O caso é que eu estava muito inspirado e resolvi postar os novos pensamentos e acabei esquecendo de colocar este que é um dos antigos. O texto agora esta revisado, mas talvez vocês notem uma pequena diferença de estilo, afinal minha maneira de escrever mudou muito de 2004 para cá. Gostaria de pedir aos meus amigos que visitaram e comentaram este texto no antigo blog permissão para postar estes comentários de novo aqui. Caso permitam deixem um comentário que em seguida colocarei o comentário antigo.

Agora fiquem com o “Pensamentos – Edição 2”

Beijos e abraços a todos e mais uma vez obrigado pelo apoio e o carinho de vocês.

Pensamentos sob a luz negra

-Edição 2-

“Quando a ficha caiu...”


Estava aqui em casa pensando sobre o que poderia escrever quando a ficha caiu. Caiu mesmo, pois decidi contar a vocês quando a ficha caiu e percebi que o meu casamento havia acabado. Como meus amigos sabem eu já fui casado e me separei a quase dois anos. Sofri muito com isso, pois amei muito minha ex-mulher. Mas nem tudo é para sempre e hoje dou graças a Deus que me separei, não pelo casamento em si, mas sim pela pessoa com quem casei. Hoje por mais que eu pense não sei como fui acabar casado com ela, não temos nada haver um com o outro. Mas o fato é que sofri (à toa, eu sei).
Bem, indo direto a historia. Acordei um dia muito triste, olhei para a cama e a vi vazia (coisa que ainda sinto) é muito difícil se acostumar a dormir sozinho depois de ter dividido a cama com uma mulher. Olhei a geladeira e não tinha nada alem de um danete vencido que aliais é uma constante na minha geladeira, sempre tem alguma coisa vencida. Neste momento percebi que tinha que ir ao supermercado.

Tomei um banho, coloquei a roupa rapidamente, o que é um fato raríssimo, demoro pelo menos meia hora pra escolher uma roupa. Peguei a chave e sai, quando entrei no elevador lembrei que havia esquecido o celular, detesto sair sem ele, mas já estava no elevador e decidi não voltar pra pegar.

Chegando na rua comecei a sentir fome, uma fome que há tempos não sentia, estranhei, mas fiz o que meu estômago mandava e fui à padaria tomar café. Comecei a ficar mais alegre pensando comigo mesmo “ poxa tem tempo que eu não tomo café na padaria. To mesmo precisando sair da rotina”.

Mas no caminho da padaria notei algo estranho, as mulheres que passavam por mim olhavam muito e sorriam para mim. Por instinto olhei a camisa pra ver se estava suja ou ao contrario, mas estava tudo bem, tinha lavado a camisa há dois dias e não havia usado ainda a calça eu sabia que estava limpa e perfeita, pois prestei atenção ao vesti-la. Fiquei com a pulga atrás da orelha, afinal eu não sou feio, mas não sou nenhum Deus grego para ficarem olhando para mim deste jeito na rua. O que será que esta acontecendo? Resolvi deixar pra lá e continuei a caminho da padaria.

Chegando lá sentei no balcão e pedi um pingado e dois pães na chapa. Enquanto esperava fiquei assistindo televisão, e percebi que ainda era bem cedo estava passando o Bom dia Rio e para variar a reportagem era sobre os assaltos a apartamentos em Ipanema. Pensei comigo: “ Que bom que eu moro em Copacabana”. Ri sozinho com meus pensamentos, para um dia que começou triste até que tava melhorando.

Chegaram o pingado e o pão finalmente, esta comendo e rindo do pensamento egoísta que havia tido quando olhei para o lado e não vi ninguém, olhei para o outro e vi um velhinho comendo o mesmo que eu. Comecei a ficar com pena do velhinho comendo sozinho. Ele parecia um pouco com meu avô que havia falecido um ano antes. O velhinho olhou para mim e disse “bom dia amigo” eu respondi com a mesma alegria que ele demonstrou. Achei estranho estar tão alegre, pois ele parecia tão sozinho quanto eu. Conversamos um pouco enquanto comia, falamos sobre o tempo a violência até que ele disse: “Está bem frio. Hoje é um dia bom para ficar enrolado o dia todo com a namorada. Tenho certeza que você vai fazer isso. Não vai?”. Eu meio sem graça disse que não tinha namorada e havia me separado a pouco tempo. Ele olhou pra mim e quase como um profeta disse “Não se preocupe, você vai achar alguém para esquentar.” Eu ri e disse “Deus te ouça!” conversamos mais um pouco e ele foi embora dizendo que ia comprar umas flores antes de ir buscar a mulher na Yôga.

Fiquei pensando no que ele disse e achei que seria muito bom ter alguém para esquentar. Paguei a conta e fui embora para o supermercado. Acendi um cigarro, fui andando devagar e de novo as mulheres que passavam olhavam e sorriam. Eu comecei a ficar preocupado. Por que estão olhando pra mim deste jeito? Apertei o passo e entrei no supermercado. Peguei logo tudo o que precisava, outro fato raríssimo, eu demoro horas no supermercado escolhendo as coisas.

Entrei na fila e estranhei ter um grupo de meninas bonitas àquela hora da manhã no supermercado. Fiquei entusiasmado com uma loirinha baixinha que estava logo na minha frente, mas não falei nada. Afinal quais são as chances da cantada de um homem deprimido na fila de um supermercado colar? Fiquei quieto ate chegar a minha vez de pagar a conta.

Enquanto eu pagava a loirinha empacotava as suas coisas que eram muito poucas. Parei de prestar atenção nela por uns segundos. Prestava atenção no valor que ia dar minhas compras quando senti uma mão no meu ombro e uma voz doce falar “ Desculpe, estou meio sem graça mas não posso deixar de dizer que adorei o seu Piu-Piu.” Eu fiquei com cara de interrogação até ela apontar para baixo e finalmente eu percebi por que todas as mulheres me olhavam. Eu estava com a cueca do Piu Piu (personagem dos Looney Toones) que minha ex-mulher havia me dado quando namorávamos saindo pelo braguilha da calça aberta. Fiquei sem graça, pensei em pedir desculpas e ir correndo pra casa quando em fração de segundos pensei:
- Eu não sou mais casado!
- Não devo nada a ninguém.
- Posso andar com o Piu Piu pra fora o quanto eu quiser e para onde eu quiser.

Então eu me enchi de confiança e disse a ela “Obrigado. Eu não costumo deixar ele pegar ar assim fora de casa. Qual é seu nome mesmo?” ela respondeu “Raquel. E o seu?”.
Ela estava em uma excursão vinda de Recife e ia embora em três dias. Deu-me o número do seu celular que estrategicamente estava funcionando aqui. Daí vocês imaginam o que aconteceu, alem de ter quase estragado uma bandeja de danete enquanto conversávamos. Neste dia percebi que não estava mais casado e que poderia ser feliz. Agora toda noite eu rezo e peço a Deus que abençoe o criador do Piu Piu e o criador do celular GSM com roaming automático. Foi assim que a ficha caiu.
Até a próxima.
Tadeu
Ps : Nunca mais encontrei o velhinho. Será que ... deixa pra lá.

quinta-feira, 15 de março de 2007

snow patrol - open your eyes

Quando ouvi esta música pensei que eu havia escrito a letra.
Em vários momentos me senti assim seja por amores ou amigos, agora tenho o que escutar nestas situações. Espero que gotem do interludio musical.
Agora a Letra traduzida.

Open your eyes
Snow Patrol

Composição: Indisponível

Tudo isto parece estranho e irreal
E eu não quero perder um só momento sem você
Meus ossos doem, minha pele está fria
E eu estou ficando tão cansado e tão velho

A raiva me corrói por dentro
E eu não vou sentir os pedaços e os cortes
Eu quero tanto abrir seus olhos
Por que eu preciso que você olhe nos meus

Me diga que você abrirá seus olhos [x4]

levante, vá embora, saia de perto desses mentirosos
Porque eles não entendem sua alma ou seu fogo
pegue minha mão, entrelaçe seus dedos entre os meus
E nós sairemos deste quarto escuro pela última vez

Cada minuto a partir deste agora
Podemos fazer o que gostamos em qualquer lugar
Eu quero tanto abrir seus olhos
Porque eu preciso que você olhe nos meus

Me diga que você abrirá seus olhos [x8]

Tudo isto parece estranho e irreal
E eu não vou perder um só momento sem você.

quarta-feira, 14 de março de 2007

Pausa para pensar


Só para atualizar vou deixar algo para vocês pensarem. Esta é uma das cartas do Tarot Zen de Osho, Adiamento número 4 do naipe de nuvens. Pensem sobre isso.
Abraços e beijos a todos, em no maximo dois dias volto com um novo "pensamentos sob a luz negra".


"4 de nuvens - Adiamento"

Adiar é simplesmente estupidez. Amanhã também será necessário decidir; então, por que não resolver hoje mesmo? Você acha que amanhã estará mais sábio do que hoje? Você acha que amanhã vai estar com um vigor maior do que o de hoje? Você acha que amanhã estará mais jovem, renovado em relação à hoje?
Amanhã você vai estar mais velho, a sua coragem será menor; amanhã você vai estar mais experiente, e a sua capacidade de dissimulação será maior; amanhã a morte chegará mais próximo -- você começará a titubear e a sentir mais medo. Nunca deixe para amanhã. Quem sabe? O amanhã pode chegar ou pode não chegar. Se é preciso decidir, decida agora mesmo.

O dentista Dr. Vogel tinha concluído o exame de uma bela e jovem cliente. "Srta. Baseman", ele disse, "acho que terei de arrancar os seus dentes do siso! "Minha nossa!", exclamou a mocinha, "seria preferível parir um bebê!" "Bem", disse o Dr. Vogel, "quer decidir logo para que eu possa acertar a posição da cadeira?"
Decida! Não continue adiando indefinidamente.

Osho Dang Dang Doko Dang Chapter 8

Comentário:

A mulher desta carta está vivendo em uma paisagem cinzenta, povoada de nuvens irreais, nitidamente recortadas contra o céu. Através da moldura de janela ela pode ver cores, luz e vida; e, embora quisesse escapar por ali -- o que se percebe pelas cores do arco-íris em sua roupa -- ela não é capaz de fazer isso. Há ainda em sua mente muita elucubração do tipo "mas, e se...?".
Dizem que o amanhã nunca chega, e não importa a freqüência com que isso é repetido, parece que a maioria de nós tende a esquecer a verdade contida nessa frase. De fato, a única conseqüência certa de adiar as coisas é o tédio e a depressão nos dias de hoje, um sentimento de incompletude e de limitação. O alívio e o desenvolvimento que você sentirá quando puser de lado todos os pensamentos de indecisão que o estão impedindo de agir agora, farão com que você se pergunte por que esperou tanto tempo.

domingo, 11 de março de 2007

Pensamentos sob a luz negra

Pensamentos sob a luz negra


-Edição 4-



“Tilt, fumaça e luz negra”

Copacabana - Fosfobox - Festa Tilt - Sábado 10 de Março de 2007

A luz negra brilha em algum lugar em meio à pista onde se encontra um grupo de jovens gritando em coro “Everybody is looking for something”. Eu sou um deles, a fumaça de glicerina adentra meus pulmões e adormece minha mente como se algo sagrado estivesse acontecendo.

O chão treme com o dançar praticamente coreografado de todos que estão no lugar. Cabeças balançam, garrafas caem, o cheiro de cerveja e a vibração das caixas de som parecem entrar no meu sangue. Minhas veias se adocicam ao escutar as notas retorcidas de uma guitarra estridente e os gritos insanos da vocalista da banda desconhecida que o DJ resolveu apresentar no seu set.

Sinto-me vivo apesar de meus amigos acharem que estou depressivo. Estava quase estático deixando o som estupidamente alto levar minhas preocupações e angustias. Prazer é a única coisa que sentia e que queria naquele momento. Estava sentindo prazer, pois finalmente havia voltado ao meu mundo. Estava mais uma vez onde tudo começou, estava em casa.

A sensação de voltar a um lugar como este é indescritível, não pelo ambiente ou as pessoas, não havia uma só pessoa que eu conhecesse, o que havia ali era música, rock, o bom e velho rock que embalou toda a minha vida. Não quero viver no passado, mas quem já viveu uma época de rock sabe do que estou falando. Foi em ambientes escuros como este que eu aprendi a viver, devo metade do que sou hoje a estes lugares escuros e sombrios repletos de fumaça e figuras estranhas onde às batidas do coração são compassados pela bateria da musica que esta tocando.

“A luz negra brilha como a ultima estrela da manhã do fim do mundo”, quantas vezes eu falei isso? Difícil dizer, mas é verdade, quando sai da Fosfobox e voltei para a realidade o mundo não fazia mais sentido algum, havia acabado. Infelizmente não sou mais o moleque de antes, cresci, amadureci e adquiri defeitos e virtudes novas. Uma das virtudes é poder voltar, vez ou outra, a ser o rapaz de preto que um dia fui.

Tadeu

quinta-feira, 8 de março de 2007

Pensamentos sob a luz negra

Pensamentos sob a luz negra

-Edição Especial-

“Mudança”

“O Tarot foi aberto e as cartas estão postas de maneira irregular e sem nexo. É assim que se abre um verdadeiro Tarot. A carta da mudança ainda paira sob a cabeça das pessoas e abre as janelas de um novo estagio que só pode ser vivido se as pessoas em questão tiverem coragem de ultrapassar sua própria janela. Você já ultrapassou a sua e coisas boas estão acontecendo apesar do sofrimento inevitável que uma mudança tão radical sempre traz. Mas também era inevitável não falar nesta hora. Você sempre se arriscou por que sempre soube que os riscos são a certeza dos acertos principalmente por que você ama sem exigir e exige sem obrigar.”

Estas foram às primeiras palavras de uma amiga muito especial que eu encontrei hoje. Antes mesmo de dizer “Ola como vai? Há quanto tempo!”. “A” (vou chamá-la assim aqui) olhou dentro dos meus olhos e me disse isso.

“A” sempre foi assim desde que a conheci há anos atrás. Para a maioria das pessoas ela parece uma mulher normal, mas para quem realmente a conhece (quando ela se deixa conhecer) é praticamente uma santa, profeta ou Fada.

Queria contar a ela o que se passava pela minha vida, mas pelo que vocês já leram não é de se espantar que ela já soubesse. Minha vida entrou em um turbilhão louco a pouco menos de um mês por conta de uma confissão a uma amiga muito amada. Contei a ela que a amava não só como amigo, havia descoberto há pouco tempo e pensado muito antes de contar. Na verdade pensei em sufocar este sentimento, mas sabia que não estaria sendo honesto e então falei. Contei sem esperar nada em troca, só queria ser sincero com ela, pois não achei justo mentir ou omitir isso de uma pessoa que é tão importante para mim. Mas algo aconteceu e ela se afastou de uma maneira que eu não consigo entender a dias não nos falamos, há quase um mês não existe uma única conversa franca e sincera entre nós.

“A” olhou para mim com atenção, fitou meus olhos com firmeza e disse: “Você já sabe a resposta, mas se quiser pode perguntar. Eu sei que você gosta de ouvir e sempre te fez bem ouvir essa sua amiga “que perdeu a voz”.”

Eu sorri e disse: “ Você realmente sabe das coisas, não sei por que ainda me surpreendo com você. Me diz o que eu já sei e não consigo acreditar? Por que a minha amiga se voltou contra mim desta maneira? Por que esse silêncio? Por que esta indiferença?”

“A” sorriu e falou depois de um longo suspiro: “Bem, exatamente o que ela tem em mente eu não posso te dizer, mas posso te falar uma coisa. Ela esta com medo, não de você e nem do seu sentimento, mas medo dela mesmo, simplesmente esta fugindo do que você sente por ela e negando para ela mesmo que isso possa ser verdade. Ela ainda não percebeu que seu sentimento é verdadeiro e que é diferente de tudo o que ela já sentiu e que já ouviu dos outros. Você nunca esperou amá-la desta forma e não estava esperando de forma alguma que ela retribuísse esse amor da mesma maneira. Eu te conheço muito bem e posso afirmar que a única coisa que você queria era contar a ela o que sentia e mostrar que agora, ao menos por enquanto, a felicidade dela é prioridade em sua vida mesmo não sendo ao seu lado e é exatamente ai que o amigo entra. Não conheço muitas pessoas que amem desta forma e muito menos de maneira tão pura quanto você. Ela vai entender mais cedo do que imagina que isso é bom, que mesmo que não aconteça nada entre vocês, até por que isso depende dela se deixar conquistar, o que aconteceu tinha que acontecer e a única diferença entre o antes e o depois é o aumento da sua lealdade a amizade dela.

Seu ombro sempre esteve apostos para quem precisava, nunca te vi e sei que nunca vou ver você negar ajuda ou conforto a alguém. O que ela não percebeu é que raras vezes você escreve um nome no seu coração na área de prioridades e o nome dela está lá, tanto como amiga quanto mulher e este segundo se ela não quiser vai dar lugar à outra.

Da pra notar pelo que você sente e pela ligação que tem com esta amiga que ela é uma pessoa boa, até mais do que a media das pessoas, mas o grande problema dela é que ao mesmo tempo que é um mulher se comporta como uma criança que se esconde quando fica assustada. Ela tem medo da mudança, tem medo do que está por vir tem medo da janela que se abriu e das opções que agora tem. Ela precisa parar de ter medo de magoar pessoas que realmente a amam, pois se o amor é verdadeiro eles não vão se magoar e sim compreender. O que ela tem a perder no momento é o homem que a ama, pois este eu sei que não vai esperá-la para sempre, este tipo de amor nós devemos pegar sem pensar muito, pois ele foge tão rápido quanto chega e sem duvida é o melhor tipo que existe, por que é o mais difícil de conseguir. Agora o amigo ela não vai perder por que te conheço e sei que você, mesmo longe, nunca abandona um amigo principalmente uma amiga como ela. O que ela tem que fazer e esta fugindo como o diabo foge da cruz é parar para pensar seriamente e sinceramente sobre o assunto. Ela só precisa de uma tarde para se decidir, pois o coração vai falar mais alto e a obsessão vai desaparecer. Ela vai perceber que seu coração esta livre de algo que já passou e que não precisa buscar mais, ela ainda quer buscar e talvez ai esteja a maior duvida dela, mas sabe muito bem que vai sofrer se tentar o errado de novo. Não estou dizendo que você é o certo, ate seria no momento, pois você a ama mesmo, só estou dizendo que o que ela ainda quer buscar é o errado e às vezes nós viciamos no erro. Você já sofreu isso na pele e sabe o quanto é difícil se livrar dos “errados” tanto com “amizades” quanto com “amores”.

O que ela precisa agora é saber que você ainda a ama como um amigo, que você sempre se sentiu muito bem ao lado dela como um amigo e que você ainda está aqui para ela e estará sempre como o amigo que sempre foi. Quanto ao homem se ela não pensar bem direitinho vai estar perdendo uma oportunidade única de encontrar de cara alguém que a ama, mas isso não cabe nem a você nem a eu julgar. Eu sei do que você é capaz por um amigo e sei do que você é capaz pela mulher que ama, já ela não sabe e tem medo de descobrir, isso é com ela não com a gente. Você agora pare de tentar julgá-la antes de escutar o que ela tem a dizer. Não estou dizendo com isso que você tenha que ter paciência com a demora, até por que ela tem que saber que esta te machucando com isso e não é justo com você que ela aja desta forma. Quanto antes ela te procurar melhor, vocês dois tem que decidir como levar isso, os dois têm que ter maturidade suficiente para conversarem não como adultos mais como ótimos amigos que são. A conversa tem que ser sincera, livre de mascaras preconceitos ou duvidas, caso ainda ajam duvidas os dois devem se ajudar para que elas se dissolvam.

O passado não importa mais nem o seu nem o dela. A mudança já foi feita você já cresceu e ela vai decidir se atravessa à janela que lhe foi dada ou não. Está janela é se te aceita como um amigo que a ama ou não, isso não tem nada haver com o homem e sim com o amigo. O homem que a ama não é a janela e sim uma das oportunidades que a mudança esta dando a ela e esta oportunidade é muito boa para o crescimento e amadurecimento dela é uma nova etapa na vida uma oportunidade de crescer e deixar a menina virar finalmente uma mulher. O único erro da sua amiga é não querer a responsabilidade de dar um basta na situação com calma tranqüilidade e afeto dos dois lados. O caminho esta aberto, pois em momento algum você o fechou, mas se ela ainda tem medo é por que existem duvidas e essas duvidas só podem ser tiradas falando olho no olho como eu estou falando com você.”

Fiquei calado por alguns segundos, estava meio perplexo com o que acabará de ouvir até que disse: “Gostaria que ela ouvisse isso, mas acho que você foi um pouco dura demais. As coisas podem não ser desta maneira. Estou muito magoado com a situação, não nego que tive vontade de largar tudo e sumir ou ao menos nunca mais falar com ela. Você me conhece sabe que sou capaz disso abandonar tudo e começar do zero, não seria a primeira vez que faria isso. Não posso negar também que esta mudança quebrou um ciclo que havia se estabelecido na minha vida. A partir daquele dia minha vida parece que engrenou de uma tal forma que não vai parar mais, conheci pessoas novas, pessoas importantes do passado reapareceram, profissionalmente também engrenou acaba de cair de presente no meu colo um ótimo emprego com um salário pra lá de razoável vou fazer uma entrevista amanhã e vou me esforçar para conseguir, até por que o trabalho é na minha área e é bem fácil.

Eu também não fechei meu coração apesar do amor que sinto por ela, até por que apareceram outras opções que serviram para me mostrar que o que sinto por ela é verdadeiro e sincero, não é carência ou confusão, estes fatos tiraram todas as duvidas que pudessem haver na minha cabeça. Alem de que eu não costumo correr atrás de ninguém e não vai ser desta vez que vou fazer isso. No momento só o que quero é saber o que se passa na cabeça dela e ter minha amiga de volta e só. Preocupo-me muito com ela, cuidado de amigo. Sei que ela confiava em mim e dói muito achar que não confia mais só por que eu disse que a amava.”

“A” outra vez fitou meus olhos firmemente e falou: “Não se preocupe opções você sempre teve e sabia de todas elas, inclusive uma das opções atuais sempre te observou de longe, mas no momento você precisa resolver o seu dilema com a sua amiga, ou melhor, ela tem que resolver. Siga seus princípios, somos todos responsáveis pelo que conquistamos você conquistou a amizade dela e esta fazendo seu papel de amigo sendo sincero e procurando para resolver a situação agora cabe a ela fazer o mesmo sem dar desculpas ou fugir da situação. Em nenhum momento estou dizendo que ela não é sua amiga, isso ela é até por que você mostrou sua alma e quem te vê desarmado sempre vira seu amigo e ela confia em você, na verdade ela não sabe se confia em si mesmo. Quanto a ela ouvir esta conversa isso é impossível, pois no momento que falávamos isso virou passado e o passado não volta, mas você tem o dom da palavra escrita e pode imortalizar isso. Faça estas palavras chegarem aos olhos dela, não só dela mas de outras pessoas também. Faça-se ser ouvido sem medo, você precisa desabafar e desabafando isso você estará ajudando não só a ela, mas também dando um presente a quem quer que leia suas linhas. Não pense no que podem dizer sobre isso ou se realmente vão acreditar, nossos encontros sempre são assim nós dois temos a influencia da carta do Louco e por isso às vezes somos incompreendidos, mas você sabe tanto quanto eu o que esta carta significa.”

Neste momento “A” se calou e olhou com muita ternura para mim. Eu a olhei da mesma forma, ela me mostrou o caminho e eu vou segui-lo mesmo que pareça besteira mesmo que me julguem errado por conta disso. Eu mostrei minha alma desarmada a esta amiga que amo e sei que por causa de seus atos muitos vão dizer que ela não merecia estas palavras, mas eu confio nela sei que ela vai ler isto sei que ela vai me procurar após ler estas linhas, sei que seu medo vai desaparecer assim que ler estas palavras.

Quanto à carta do Louco, às vezes também chamada de Bobo, vou tentar resumir em algumas palavras o seu significado:

“O que é seu ninguém nunca conseguirá tirar”

Tadeu

sábado, 3 de março de 2007

Pensamentos sob a luz negra

Pensamentos sob a luz negra

-Edição 3-

“Eu”

Livraria Argumento - Ultima segunda-feira de fevereiro de 2007

Não estava muito bem neste dia, estava com uma sensação estranha depois de uma noticia nada agradável. Precisava de ar então resolvi adiantar um encontro que havia marcado com uma amiga e pedi que me encontrasse na livraria. Para variar cheguei primeiro e resolvi folhear um livro que já estava “namorando” há algum tempo. O livro é “Dance Dance Dance” de Haruki Murakami (meu autor favorito). Li a primeira pagina e percebi que neste livro em especial Murakami-sama* é mais acido do que nos outros livros que havia lido, chega a ser um pouco depressivo nas palavras que usa, continua com seus traços característicos, mas sem duvida não deveria estar passando por uma boa fase ao escrever esta historia.

Em um certo momento o personagem principal fala de sua época de colégio, descreve como os professores o faziam se apresentar à turma todo inicio de ano letivo. Divaga então sobre o que mudou daquele tempo ao atual (a historia se passa em 1979) e ele descobriu que a única coisa que restou daquele tempo foi seu gosto por nadar.

Fechei o livro e fitei firmemente a foto de um corredor de hotel azul que havia na capa, queria saber no que eu tinha mudado da época do colégio até hoje, queria saber quem eu era.

Não tardou e minha amiga chegou e para minha feliz surpresa não estava sozinha, a tira colo veio outra amiga. Nanda e Fla, coincidentemente duas amigas do tempo de colégio. Duas mulheres importantes na minha vida em épocas diferentes.

Nanda já chegou tirando o livro de minhas mãos e perguntando qual a nova esquisitice que eu estava lendo, Fla gentil como sempre me deu um forte abraço e um longo beijo no rosto. Finalmente um momento feliz, estava precisando daquele abraço.

Como de costume quando estamos juntos em uma livraria, começamos a conversar olhando as estantes e vez ou outra falávamos de uma capa legal que estava a nossa frente. Havia muito tempo que não nos encontrávamos os três juntos, por isso o papo foi meio nostálgico.

Elas falavam da época de escola, de como eram chatas as aulas e principalmente de como eu era um “canalha” agradável. Eu não era exatamente um canalha, mas andava com eles, sabe aquela fase que você quer ser como todo mundo, que nós achamos que isso ou aquilo é divertido só por que os “populares” fazem, pois é eu também tive essa fase e de certa forma foram essas duas que me tiraram dela.

Aproveitando a aura de nostalgia perguntei a elas como eu era naquela época e como elas me viam hoje. Não vou dizer aqui o que as duas me falaram, até por que não quero me gabar, mas foi uma injeção de ânimo em minha alma.

Conversamos muito naquela noite, primeiro na livraria depois no apartamento da Nanda comendo pizza. Depois de tanto falarmos percebi uma coisa muito estranha, não mudei nada. É verdade, não perdi nada daquele tempo de colégio apenas acrescentei. Amadureci muito com alegrias e pancadas homéricas. Aprendi a amar, odiar e a controlar os dois sentimentos para não me prejudicar. Aprendi a ser bom mesmo quando quero ser ruim. Aprendi a me machucar e a curar essas feridas. Aprendi a sorrir com a alma por mais que no meu rosto estejam rolando lagrimas de dor. Aprendi a ir a qualquer lugar mesmo que não goste, desde que eu tenha um motivo que pode ser um simples sorriso de alguém que seja importante para mim. Aprendi a acreditar nos meus sonhos e a respeitar os sonhos dos que estão ao meu lado. Aprendi a me transformar de problema em solução. Aprendi a experimentar antes de julgar se é bom ou ruim. Aprendi a não ter medo do medo e a não ter medo do novo só por que não o conheço. Aprendi que não preciso de um lugar para me diverti a diversão esta nas pessoas e não nos ambientes. Aprendi que quando se ama se ama alguém não o que ela pode te oferecer. Aprendi que um bom copo de vinho pode ser amargo como fel e que a pior das cervejas pode ser o néctar mais doce e sublime e isso só depende da companhia. Aprendi que tempo não é dinheiro, pois o tempo é infinito e sempre nos traz coisa boas, já o dinheiro só nos mostra a materialidade e ambição das pessoas. Aprendi a gostar de queijo branco, espinafre e brócolis. Aprendi a ser sincero e não ter medo desta sinceridade. Aprendi que minha mente não me controla ela é apenas um instrumento trabalhando a favor do meu coração. Aprendi a escutar minha intuição, pois só ela pode me indicar o caminho certo a seguir. Aprendi a não ter medo de aportar, pois parar no porto não quer dizer perda de liberdade e sim a garantia de que vou ser sempre livre.

Agora eu lembrei quem eu sou.

Tadeu

*Sama – sufixo japonês usado após nomes e sobrenomes indicando respeito. Em português equivale a “Senhor(a)”.

P.S.: Nanda e Fla obrigado por mostrar quem eu sou. Nanda obrigado pelo livro, para variar estou lendo compulsivamente.

 
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