Old Songs

sábado, 26 de maio de 2007

Ola. Desculpem pela demora na publicação. Acabei “lambendo” um pouco demais o texto.

Está semana não publiquei os “pensamentos sob a luz negra”, mas voltarei a publicar semana que vem. Resolvi botar ordem na casa e agora temho dias específicos para publicação.

São eles:

Quarta-feira –Pensamentos Sob a Luz negra

Sábado – Pensamentos de Terras Distantes “Azure Moon”

Agora tentarei ser assíduo nas publicações e espero que gostem da leitura.

Abraços e beijos a todos.

Azure moon

Capitulo – 1

Onee-chan”


No trem Kaori olha atentamente as ruas no mapa tentando decorá-las. São ruas estranhas para ela, mas logo farão parte de seu cotidiano. A partir de agora tudo será muito diferente. Não esta mais na província de Yamanashi. Está não é a capital Kofu. Agora Kaori está em Tóquio. Indo em direção ao bairro de Shibuya como havia planejado com Ryuji. Infelizmente ele não esta com ela.

Quase um ano se passou desde a morte de Ryuji e a moça mudou muito neste tempo. Isolou-se de quase todos os amigos, aproximou-se da família e principalmente de sua irmã Momoko que outrora era sua “pior inimiga”.

A rivalidade entre Kaori e Momoko era antiga. Momoko é um ano mais nova que Kaori e é fruto de uma gravidez complicada. Sua mãe engravidou pouco tempo depois do nascimento da primeira filha e por isso a criança nasceu com uma série de problemas de saúde. Por causa da saúde frágil Momoko tornou-se o centro das atenções de seus pais e de toda a família. Kaori era amada, mas sentia-se excluída ao ver a atenção prestada a sua irmã mais nova. Este é um dos grandes motivos que a levaram a ser uma rebelde e tornar-se à moça promiscua que foi ate encontrar Ryuiji.

Kaori nunca tratou bem a irmã, às vezes até fingia não a conhecer. Na escola, ficou muito irritada quando Momoko ganhou o direito de pular um ano devido ao seu excepcional rendimento nos estudos. Apesar do desprezo Momoko orgulhava-se de ser irmã de Kaori. Não concordava com suas atitudes, mas admirava sua força quando queria alguma coisa Além da popularidade, todos falavam com ela, todos gostavam de conversar com Kaori enquanto Momoko tinha como únicos amigos os livros e as revistas de moda que gostava.

Após a morte de Ryuji o isolamento de Kaori foi quase total. Durante as primeiras duas semanas seu único contato com o mundo fora de seu quarto era a mãe que levava suas refeições, e Momoko que todos os dias contava as novidades da escola em voz alta na frente do quarto da irmã. Kaori não entendia por que a irmã fazia isso e irritava-se com este falatório, mas resolveu não dizer nada achando que Momoko se cansaria e pararia de incomodá-la.

Mesmo sem haver resposta de Kaori a menina não desanimava e pontualmente as sete da noite plantava-se à frente da porta fechada e começava a falar sobre o dia que havia passado. Kaori ficou muito nervosa com isso nos dois primeiros dias, mas logo acostumou a ouvir a voz da irmã. No final da primeira semana sentava-se atrás da porta e esperava ansiosamente a irmã trazer as noticias do mundo de fora. Não falava nada, apenas ouvia e divertia-se com a ingenuidade de Momoko sobre certos assuntos. Kaori comparava-se a sua avó a escutar as noticias no rádio quando nova.

No fim da segunda semana Kaori sentada perto da porta de seu quarto notou algo estranho, sua irmã pela primeira vez se atrasará para o relato do dia. Kaori estranhou, pois Momoko sempre foi pontual, não se atrasava um só minuto. Dez minutos se passaram e nada de escutar a voz de Momoko. A jovem preocupada encosta o ouvido na porta tentando escutar algum som que denuncia-se a presença de sua irmã. A princípio não escutou nada, mas prestando atenção ouviu uns gemidos muito baixos, escutou por mais algum tempo e notou que os gemidos eram de alguém chorando.

Kaori afastou-se da porta e não sabia o que fazer. Tinha certeza de que era Momoko chorando, conhecia o choro da irmã muito bem, havia escutado varias vezes e em algumas foi à causa das lágrimas.

Ela decidiu abrir uma pequena fresta da porta para certifica-se de que era Momoko do outro lado. Ao olhar viu a irmã encolhida no chão abraçada a um livro. Chorava baixinho e de forma muito dolorosa. Kaori vendo-a sofrer, por instinto, abriu a porta e a abraçou. Momoko se aninhou nos braços da irmã e chorou por muito tempo. Kaori acariciava seus longos cabelos negros delicadamente, não sabia exatamente o que sentia, mas era um sentimento bom apesar do desespero da irmã.

Depois de um tempo Kaori a levou para o quarto e Momoko contou por que estava chorando. Havia deixado seu livro cair na lama e por azar um carro passou por cima dele. Ela mostrou o livro, estava sujo e rasgado, apesar disso aparentava ser um livro caro. Era uma edição especial com vários ensaios da revista Vogue Italiana, foram editados muito poucos como este e era realmente muito caro. Momoko disse que havia economizado por quatro meses o dinheiro que ganhava dando aulas particulares para comprá-lo. Kaori perguntou por que ela não pedirá o dinheiro para seus pais, não eram ricos, mas com certeza dariam um jeito de dar o livro a ela. Momoko respondeu:

___ Queira comprá-lo sozinha, pois sabia que você nunca pediria dinheiro para nossos pais. Você sempre foi independente desde pequena, quando queria alguma coisa sempre dava um jeito de conseguir sozinha. Eu queria ser assim, queria ser um pouco como você.

Agora foi a vez de Kaori chorar. Ela sentiu orgulho e um terrível sentimento de culpa por nunca ter dado atenção à irmã, nunca imaginou que era tão admirada por ela. Em meio as lágrimas Kaori diz algo que antes seria impossível falar:

___ Gomen nasai (desculpe-me)... Desculpe-me por não ter estado ao seu lado durante todos estes anos.

Depois deste pedido de desculpas as duas conversaram quase toda à noite. Kaori descobriu que o sonho de Momoko era ser estilista. Por isso o livro era tão importante para ela, não era o valor material e sim um pedaço de seu sonho que havia sido “atropelado” por um carro. Kaori se surpreendeu ao saber disso, sempre pensou que Momoko fosse se envolver com contabilidade ou administração como seu pai. Então a irmã lhe disse algo que a deixou extremamente emocionada.

___ Realmente estava decidida a estudar contabilidade para ajudar papai nos negócios, mas meu sonho sempre foi estudar moda. Não queria decepcionar papai, por isso escondi meus desejos e ia para a faculdade de contabilidade para agradá-lo. Só contei para uma pessoa o que realmente queria fazer, qual era meu sonho. Foi está pessoa que disse para eu correr atrás dele e não desistir. Disse que com certeza papai entenderia que meu caminho era diferente do dele e se orgulharia de mim de qualquer forma. Quem me disse isso foi Ryuji.

Kaori sorriu amavelmente e deu um beijo na testa da irmã dizendo:

___ Às vezes eu acho que Ryuji era um Buda disfarçado de apreciador de rock setentista. Siga o conselho dele, não poderia ser melhor.

A partir deste dia as irmãs tornaram-se amigas inseparáveis. Ryuiji havia conseguido fazer outro milagre, uniu Kaori e Momoko.

____ Onee-chan! (expressão usada para irmãs mais velhas) Onee-chan, chegamos! Vamos logo!

Kaori estava tão absorta olhando as ruas no mapa que não ouviu o anuncio da estação. As irmãs precisaram se apresar antes que o trem fechasse as portas e saísse. Uma corrida frenética e divertida se dá dentro do vagão. A alegria volta ao rosto de Kaori quando esta com a irmã.

Saem da estação de Shibuya e logo ficam perdias no meio da multidão. Shibuya é um dos bairros mais movimentados de Tóquio, principalmente em um sábado à noite.

___ Tem muita gente aqui. Como vamos encontrar o guia que papai mandou para nos levar ao Pub? ___ diz Momoko apreensiva.

___ Papai disse que ele estaria na frente da estátua de Hachiko. Bem... A estátua esta logo ali na frente, só não sei como este tal guia vai nos reconhecer. Por enquanto não temos outra opção a não ser esperar.___ fala Kaori um tanto intrigada.

As meninas dirigem-se para perto da estátua de Hachiko e lá esperam por mais de uma hora. Kaori está muito irritada, detesta esperar. A moça está preste a sacar o celular e ligar para o pai quando um rapaz se aproxima.

___ Oi, desculpe a demora. Eu ainda não conheço bem este lugar.

Ao olhar o rapaz às meninas gritam em coro:

___ Hiroshi?! Que diabos você está fazendo aqui?

___ Vocês não sabiam que eu estava aqui? Pensei que o Senhor Makimura tivesse falado. Estou trabalhando no Pub de vocês. Vim para Tóquio estudar.

Kaori torce o nariz e fala:

___ Por que não nos disse que viria para Tóquio. Pensei que você não ia sair de Kofu nunca.

Hiroshi pensa em falar, “tentei te dizer isso por um ano, mas você não me deixava nem chegar perto”, mas preferiu ficar calado.

Momoko timidamente diz:

___ Pessoal, vamos deixar esta conversa para depois. Estou com fome vamos logo pro Pub comer alguma coisa.

Kaori e Hiroshi concordam com um movimento de cabeça.

___ Bem Hiro-chan! (forma carinhosa de se referir às pessoas, como um apelido. Pode-se usar o nome todo ou apenas parte dele.) Você é o guia. Por onde vamos?___ Diz Kaori de forma sarcástica.

___ Eu acho que é por ali. Bem... Também pode ser pela rua atrás da estação? Não. É por aqui mesmo... Eu acho?

___ Como assim você acha? Você não chegou aqui? Você te quem saber voltar!

___ Calma Kaori! Eu vou levar a gente. Uma hora a gente chega lá. O problema é que eu me perdi para chegar aqui. É muita gente andando pelas ruas eu fiquei meio desnorteado. O povo aqui anda muito apressado.

___ Eu to com fome! ___ Diz Momoko.

Kaori está quase pulando no pescoço de Hiroshi quando olha para cima tentando se acalmar. No céu vê uma imensa lua cheia, fica praticamente hipnotizada com esta visão. Seus pequenos olhos puxados parecem tentar filtrar a luz do luar em meio ao excesso de néon das ruas de Tóquio. Ela pensa em Ryuji.

___ Onee-chan, você está bem? ___ diz Momoko preocupada, mas Kaori não responde.

Hiroshi a segura pelos ombros.

___ O que houve Kaori? Acorda! O que está vendo?

A menina olha para Hiroshi e o abraça. Lágrimas correm por seu rosto, lágrimas de saudade. O rapaz não sabe bem o que fazer e fica imóvel até Kaori dizer baixinho:

___ Azure moon. Hoje é o primeiro dia da Azure moon de Ryuji.

Hiroshi e Momoko olham para cima e vêem a lua cheia. Eles acham a lua realmente linda, mas não conseguem compreender a importância dela nesta hora. Eles precisam de mais algum tempo para entender está tal Azure Moon.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Pensamentos sobre Terras Distantes

Ola a todos. Finalmente estou publicando o primeiro “Pensamentos de terras distantes” seção em que publicarei minhas historias de ficção. Estava previsto para o inicio de abril, mas por motivos alheios a minha vontade precisei adiar este projeto que agora terão a oportunidade de começar a ler.

Este é apenas o prólogo de uma historia em quatro partes que será publicada uma vez por semana. Acho que vão notar que comecei longe, pois a historia se passa no Japão e a trilha sonora é composta apenas de cantores japoneses.

Espero que gostem da leitura.

Obs: Os “Pensamentos sob a luz negra” continuarão sendo publicados semanalmente. Então Fafas não se preocupe que vou narrar as desventuras da mesa de sinuca
do Pista 3 em breve.



-Prólogo da Lua-

A fumaça negra que sai da chaminé permeia o céu logo acima do crematório. Ao longe uma jovem observa atentamente os desenhos que são formados pela nuvem negra ao sabor da brisa fria de outono. Kaori tenta imaginar o que Ryuji acharia desta cena, mas é muito difícil para ela pensar nisso sabendo que aquela fumaça negra é a única coisa que resta de seu namorado.

“Ryuji. Ryuji seu imbecil! Você prometeu que nunca ia me deixar. Por que você fez isso comigo? Por que você tinha que morrer logo agora que tínhamos tantos planos? Por que você tinha que dizer que me amava há um ano atrás?

Eu era feliz como estava, não me importava de ser uma simples vagabunda da escola. Se você não falasse que me amava eu continuaria sendo só mais uma piranha de Sera Fuku (Uniforme de colegial). Eu gostava daquilo, gostava da forma que os homens me olhavam. Gostava do toque de varias mãos sobre minha pele. Não me importava com aquilo, me excitava. Eu gostava de ficar com vários. Era como uma “coleção” em que só eu tinha todas as peças.

Eu era uma piranha, ninguém podia me amar, mas você apareceu. Deu-me um beijo e disse “eu te amo”, pela primeira vez fui tratada com carinho e não apenas com desejo. Senti pela primeira vez meu coração bater. Pela primeira vez alguém gostava de mim e não se importava com o que eu era. Você me assumiu sem medo, enfrentou a todos com a cabeça erguida e nunca teve vergonha de dizer a ninguém que eu era sua namorada e que você me amava.

Sabia o risco que corria, sabia que era quase certo que eu te trairia, mas quando questionado sobre isso dizia apenas uma frase, “Eu a amo por isso confio nela”. Eu não conseguia te trair por que você acreditava em mim. Acreditava mesmo sabendo ser praticamente impossível ter a minha lealdade. Eu mudei por causa da sua confiança, não te trairia nunca, não poderia ferir alguém como você, não poderia machucar a única pessoa que realmente acreditava que eu era uma boa pessoa, não poderia trair você que era o único que acreditava que eu era uma mulher digna de receber um pouco de amor de verdade.

Você me ensinou a ser uma mulher, deixei de ser a vagabunda e me tornei uma mulher feliz. Por você comecei a levar os estudos a sério, por você eu aprendi a apreciar as coisas pequenas. Troquei uma coleção de homens sedentos por uma coleção de minutos felizes ao seu lado. Nestes minutos eu me encantava com cada palavra que me dizia, cada sonho seu passou a ser importante para mim e meu único sonho era que os dias não terminassem para não ter de sair do seu lado.

Seu merda! Por que morreu agora? Logo agora... Daqui a um ano iríamos para Tóquio. Iríamos estudar e trabalhar no Pub que meu pai abriu depois de muito esforço. Eu estava feliz pois teria uma vida nova. Uma vida em um lugar onde ninguém me conhecia e não precisaria sentir vergonha do que fiz no passado. Uma vida onde eu estaria ao seu lado.

Lembro-me de você dizendo que no mês que nos mudaríamos seria um mês de Azure Moon (Lua Azul), a lua do amor como gostava de falar por causa das músicas americanas que escutava. Aonde vai estar o meu amor quando eu partir? De que vai adiantar passar por uma Azure Moon sem você? Sem você eu nem saberia que ela existe, sem você eu seria apenas mais uma piranha de Sera Fuku.”.

As palavras gritadas de Kaori são repentinamente escondidas por um choro compulsivo e doloroso. A jovem chora com os olhos fixos na fumaça que sobe da chaminé do crematório. Está sozinha como sempre esteve, mas o vazio parece ser maior desta vez.

A poucos metros dela uma figura esconde-se atrás de uma grande cerejeira. Um rapaz escuta o sofrimento de Kaori e também sofre por ela e seu amigo que morrera. Este rapaz é Hiroshi, um dos melhores amigos de Ryuji e apaixonado por Kaori há anos. Desde o dia do inicio do namoro deles adotou um “esporte” muito incomum para um jovem, resmungar.

“Que merda de sentimento estranho! Não consigo deixar de estar um tanto feliz por Ryuji não estar mais aqui e ao mesmo tempo não consigo acreditar que perdi um amigo como ele. Da mesma forma que me senti no dia em que ele começou a namorar Kaori. Eu queria que ele morresse naquele dia, mas ao mesmo tempo estava feliz por que meu amigo havia encontrado o amor que tanto procurará. Mas tinha que ser logo ela?

Ryuji não sabia que eu a amava. Eu sempre dizia que gostava de alguém, mas tinha vergonha de dizer por causa dos atos dela. Pensei em mandar um e-mail dizendo a ela o que eu sentia, mas Ruiji me disse, “Certas coisas não podem ser ditas através de pontos de luz em uma tela de vidro. Tanto faz se são boas ou ruins, de qualquer forma é deslealdade privar os olhos de “escutarem” a sinceridade das palavras”. Ele seria apenas mais um filho da puta romântico se não estivesse certo. Conquistou Kaori com a única coisa que não tive coragem de fazer por puro preconceito. Ele disse que a amava.

Agora não tenho nem coragem de chegar perto dela para consolá-la. Tenho medo de estar traindo um amigo e tenho medo de ser recusado por ela, o que não seria muito difícil de acontecer na situação atual.

Kami-Sama (Deus) o que eu faço?

Quem sabe até está tal de Azure Moon eu tenha uma chance de estar perto dela? Afinal daqui a um ano eu também vou para Tóquio. Pelo menos tenho algo em comum com Kaori. Talvez seja uma chance de me aproximar, planejar algo com ela.

Do que estou falando? Meu amigo morreu e só no que consigo pensar é em conquistar a namorada que ele deixou.”

Os resmungos de Hiroshi param, seus olhos se fecham e tímidas lágrimas começam a rolar por seu rosto. A noite cai e uma linda lua cheia aparece em meio às nuvens. Ele continua lá, encostado na grande cerejeira e a poucos metros a mulher que ama chora por seu amigo morto.

O que acontecerá agora, talvez só o tempo possa dizer.

sábado, 5 de maio de 2007


Vago sozinho pelas ruas em busca de respostas. Respostas para frases feitas que certas vezes fazem um sentido aterrador. Respostas para o vazio que insiste em permanecer em minha mente. Um estado de torpor toma conta de meu corpo e principalmente de meu coração. Nada me satisfaz, preciso sentir minha alma mais uma vez. A gentileza de antes não habita mais minhas palavras. Talvez já tenha encontrado a resposta que tanto queria. Há anos a procuro. Parece-me que desta vez consegui encontrar.

Nos olhos das pessoas que passam vejo amor, prazer e ódio. Sentimentos comuns nos dias de hoje, “coisas” sem valor para a maioria delas.

“Deus criou os sentimentos apenas para causar dor ao ser humano.”

Certa vez ouvi está frase de um “profeta das ruas” no centro da cidade após uma longa bebedeira. Às vezes acho que este profeta era o mais sábio dos santos.

Meus sentidos falham pouco a pouco, uma leve tontura acentua o estado de torpor de minha mente. Este estado me irrita profundamente.

Por que não passa?

Por que tenho que passar por isso?

Estas respostas eu tenho. A culpa é minha, demorei demais, na verdade nunca deveria ter começado.

Continuo andando, alguns quilômetros se passaram desde que comecei esta caminhada sem rumo. Paro em frente a um prédio que conheço bem. Finalmente algo passa por minha mente. Um alento afinal, uma lembrança, duas taças de vinho e uma pequena Deusa nórdica. Neste dia não senti falta, quando estive neste prédio senti apenas prazer e alegria. Não havia espaço para o que hoje me deixa louco.

Penso em voltar para casa, mas meu corpo parece não obedecer, precisa se livrar de algo ruim e teima em continuar andando. Talvez mais alguns quilômetros de caminhada possam me livrar do que me angustia.

As ruas estão tranqüilas, mas uma brisa fria e cortante parece querer ferir minha pele. Meus sentidos agora estão à flor da pele. Qualquer detalhe é sentido com a intensidade de um trovão.

Caminho cada vez mais rápido, tento fugir de algo que sei que ainda vai perseguir-me por algum tempo. Não sinto mais meus passos a irritação continua. Minha vontade é jogar-me em baixo de algum carro. Neste momento gostaria de ser assaltado, com certeza reagiria ou imploraria de joelhos para que o assaltante tivesse a nobreza de dar-me um tiro no meio da testa. Balas perdidas, sempre tive medo delas, hoje peço para que alguma me encontre.

Que merda fui fazer!

Definitivamente a gentileza desapareceu de minhas palavras. Um mendigo se aproxima e pede-me um cigarro. Nunca fui mal educado com estas pessoas, mas desta vez só o que o sai de meus lábios é um sonoro “Não fode!”. Realmente a gentileza acabou.

Que vontade de tomar um café! Ao pensar nisso lembro de algo que não vai fazer-me bem lembrar. Parece que quanto mais tento não lembrar mais me vem à cena a cabeça. Não posso, simplesmente não posso continuar nesta merda.

Por que logo comigo isso tinha que acontecer?

Mais uma vez vem-me à resposta como um soco no estômago. “A culpa é toda sua!”. Sem duvidas a culpa é minha. Sem duvidas o otário fui eu de acreditar em algo que sabia ser errado e ainda assim ter me metido nisso. Um dos meus mestres sempre disse:

“Não adianta pedir desculpas por ter feito algo que de ante mão sabias que era errado.”

Chego ao final de uma grande avenida. Para onde vou agora? Lembro-me então que estou perto de um mirante, olhar o mar pode fazer-me bem, sempre me acalmou. Chegando lá compro um suco de pêssego e dirijo-me ao parapeito principal. O vento frio e o cheiro da água salgada me acalmam por alguns instantes. Meus sentidos ainda estão aguçados sinto coisas que antes não sentia. Estou concentrado no perfume do mar quando sinto um cheiro estranho. Agora a gentileza que já não habitava minhas palavras por causa da irritação acaba de deixar meus pensamentos também.

“Quem é esse filho da puta que resolveu acender um cigarro do meu lado logo agora?”

Desvio meu olhar para o lado e um velhinho simpático está degustando um “delicioso” Marlboro vermelho. Se minha vontade de fumar não fosse tanta, juro que não entenderia o prazer que aquele senhor demonstrava em cada tragada profunda.

Eu não devo fumar, mas quero muito um cigarro agora. A causa de todo meu sofrimento é o cigarro, sei que toda minha irritação está ligada diretamente a este vicio que adquiri há anos atrás e agora estou deixando. A culpa de estar irritado e com está sensação horrível dentro de mim é toda minha. Eu deveria ter parado de fumar antes, a abstinência seria menos severa. A culpa é minha, não deveria nem ter começado. Agora só o que me resta é pagar pelo mal que me fiz e agüentar isso. Espero que meu esforço sirva como exemplo para os outros, mas só quem sente na pele sabe como é difícil largar este “delicioso” vício maldito.

---Este é apenas o início do fim.---

Pensamentos sob a luz negra

-Edição 8-

“Nicotina”

 
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