Os primeiros raios de sol entram pelas frestas da cortina. O dia começa bonito depois de uma chuva intensa que banhou a cidade durante dias. É estranho a chuva parar logo hoje...
Lembro-me de uma dor de cabeça de infância, sempre a sentia quando fazia algo errado. A dor vinha dos cascudos que minha irmã dava vez ou outra. É incrível como lembro disso claramente, o cascudo em si não doía muito, mas eu chorava como se estivessem me torturando. Pouco tempo depois já estava rindo e brincando com ela outra vez.
...Um silêncio estranho e doído espalha-se por toda a casa, tudo esta estranho hoje...
Avenida Atlântica, minha bicicleta vermelha sempre foi a mais rápida, minha irmã conversa com uma amiga, mas não tira os olhos de mim. Ela sabe que vou acabar caindo em alguma curva do circuito imaginário da corrida. Sinto o vento acariciar meu rosto e vejo seu sorriso ao me resgatar caído no chão. É bom saber que ela esta ali sempre que eu cair.
...A casa está vazia, falta alguém aqui... Não preguei os olhos à noite toda... O tempo passa rápido... Ou será devagar?...
Minha irmã casou. Estou feliz e ao mesmo tempo triste. Ela não vai mais estar aqui o tempo todo, não consigo ficar feliz por ter um quarto só pra mim. Mas fico feliz por ela... Ela parece feliz.
... Meus pais acordam, minha sobrinha acorda, a tensão toma conta de todos, parecemos zumbis sem saber que direção tomar...
A Mary está a caminho. Minha sobrinha nasceu, tão pequenininha nem sei o que pensar ao olhá-la. O tempo passa, minha irmã separa-se e fico cada vez mais próximo da pequenina que da luz a casa. Minha irmã aprendeu bem com nossa Mãe. Em sua vida agora só existe sua filha.
... O telefone toca insanamente, pessoas chegam... Mais zumbis sem direção chegam...
Eu casei, moro ao lado de minha irmã. Algo diz a ela que vou sofrer, mas não me fala nada, prefere comentar com nossa Mãe. Meu casamento vai desmoronando aos poucos, junto com ele minha saúde também. A depressão me arrebata de forma violenta, foi um momento muito difícil, principalmente a separação. Minha irmã sempre foi muito fechada quanto a sentimentos, mas aprendi a ler em seus olhos a preocupação. Ao notar isso percebo que tenho que melhorar... Mais uma vez é bom saber que ela está ali sempre que eu cair.
...Esta chegando à hora, não quero ir, pois estou preocupado com meus pais e minha sobrinha. Meu Pai diz que não pode ir, não agüentaria. Pergunto a minha Mãe se ela quer que eu fique... A resposta vem em forma de pergunta: “Mas ela não pode ficar sozinha! Você vai deixá-la sozinha?” Não Mãe, não a deixarei sozinha...
Alguns anos se passam, estou recuperado de um casamento desfeito e hoje moro com minha irmã. Brigamos muito por besteiras... A casca de banana deixada na poltrona é um dos maiores motivos. Brigamos um pouco e logo olhamos para o relógio... Vai começar o “Dr. House” a briga da lugar as gargalhadas. Sempre foi assim, não adianta, não conseguimos brigar por muito tempo por mais orgulhosos que nós sejamos.
...O sol parece mais quente que o normal... Estranho... Sempre faz sol neste caminho... É a terceira vez que passo por aqui... Gostaria de não ter que passar aqui hoje... Mas é inevitável...
Estou em casa com minha sobrinha, minha irmã chega... Ela não esta bem, havia tido um desmaio enquanto trabalhava. Diz que tem que descansar e vai para o quarto. Fico jogando videogame com a Mary, mas sempre vou olhar como ela está... Estou preocupado.
... Chego onde não queria chegar... Pessoas me abraçam, lágrimas escorrem compulsivamente dos olhos de todos que estão aqui. Não sei bem o que fazer... Não sei o que pensar... Mas não posso deixá-la sozinha...
Dois dias se passaram depois do desmaio. Minha irmã esta internada... CTI... Detesto esta sigla. Minha Mãe chora ao telefone ao me contar da internação. Lembro da voz de minha irmã na última vez que nos falamos... Estava sem ar, muito cansada, minhas últimas palavras com ela foram: “Ana, Chame a Mãe e vá descansar. Você está muito cansada. Não fale muito, descanse, relaxe um pouco.”
...Pessoas falam e rezam, católicos, batistas, evangélicos. Amigos e parentes, não importa no que acreditam o fato é que não da para acreditar no que está acontecendo...
Estou em casa com meu Pai quando o telefone toca. É minha Mãe dizendo que minha irmã piorou. Está muito abalada, logo desliga o telefone prometendo manter-me informado e pede para que cuide de meu Pai.
... Seguro a alça de metal dourado com firmeza, seguro como se fosse sua mão... Não vou deixá-la sozinha...
O telefone toca mais uma vez... Não quero acreditar, mas já imagino o que seja. É minha Mãe de novo. Sua voz é fraca por causa do choro, já sei o que ela vai falar: “Meu filho... Jesus levou a Ana. Jesus levou minha filha.”... Minha primeira reação ao desligar o telefone é chorar, mas ao olhar para frente vejo meu Pai em pé na entrada do quarto. Dou a notícia com cuidado junto com um abraço apertado. As palavras de meu Pai são quase as mesma de minha mãe: “Por que Jesus teve que levar minha filhinha?” A muito tempo não sou católico, mas confesso que fiz a mesma pergunta.
... O cortejo segue até o túmulo... Não largo a alça de metal dourado nem um segundo... O sol está muito forte, pequenos pássaros cantam pousados nas lápides... Seria uma cena linda caso fosse outra ocasião... O caixão desce devagar, as lágrimas escorrem de meus olhos involuntariamente... Os raios de sol são refletidos em meu rosto pelo crucifixo dourado na tampa do caixão... Deixo cair quatro flores brancas em cima do caixão, deixo-as cair depois de um beijo carinhoso... Não ha mais volta... Minha irmã faleceu...
...As gargalhas e as brigas bobas não existem mais. O sol continua a brilhar forte... Sempre que venho aqui o sol brilha deste jeito... Parece querer dizer que há coisas maiores do que eu. Coisas que não posso impedir...
Desço as escadas de uma casa que hoje não faz mais o menor sentido para mim, na varanda uma pena branca cai lentamente no chão. Coincidência sem dúvida... Certas coincidências são cruéis... Pela janela vejo meus pais e minha sobrinha... As lágrimas insistem em cair mais uma vez... Estranhamente sinto algo me confortando... Será...? Não sei, no momento não posso saber. Olho mais uma vez para meus pais e minha sobrinha, um sorriso tímido começa a surgir em meus lábios. Eles precisam de mim...Eu preciso deles... Aninha, minha irmã, não se preocupe. Agora é comigo... Vou cuidar muito bem deles, não vou deixá-los cair... Pode descansar tranqüila...
...Te amo.
Tadeu